O que leva alguém que vive há vários anos na Dinamarca a querer aplicar o padrão Passive House numa reabilitação em Portugal? Para Cristiano Iria e Sara Canhoto a resposta começou na experiência de viver diariamente numa casa confortável durante todo o ano e na vontade de trazer essa mesma qualidade de vida para o projeto que estão a desenvolver na Ericeira. Nesta entrevista, Cristiano conta-nos como descobriram o padrão Passive House, porque decidiram aplicá-lo na transformação de um antigo aviário em duas moradias geminadas e de que forma a consultoria e a certificação se tornaram peças importantes para garantir que aquilo que foi pensado em projeto é efetivamente bem executado em obra.
Margarida Gamboa (MG): Começava pelo início, por te perguntar porque é que decidiram fazer uma Passive House.
Cristiano Iria (CI): Decidimos construir uma Passive House porque, como disseste, nós vivemos na Dinamarca há alguns anos e a construção aqui tem um conforto sem igual comparado com Portugal. E quando nós chegamos agora à altura de pensarmos em construir em Portugal e termos um sítio nosso, claramente queríamos construir uma casa que tivesse o mesmo conforto que temos aqui. Nós estamos o ano todo de calções e t-shirt dentro de casa, seja inverno seja verão. Isso contribui não só para o nosso conforto dentro de casa e o nosso nível de energia e bem-estar, mas também para a saúde. Eu sempre que vou a Portugal é muito raro não ficar doente e vivo aqui há cerca de 8 anos e fiquei uma vez doente aqui.
Quando decidimos começar a olhar para o nosso projeto e como é que queríamos construir andei a fazer uma grande pesquisa de que padrões é que existem, perceber se existia alguma espécie de framework. Eu não sou da área da construção, nem de engenharia civil, nem nada relacionado. O meu trabalho é informático e fiz uma pesquisa sobre que espécie de regulamentos é que existem aqui na Escandinávia, porque as casas são muito bem construídas e é muito agradável de viver aqui nas construções, tanto as antigas como as mais recentes, e eu tentei informar-me para ver se existia alguma coisa semelhante em Portugal. Foi aí que eu encontrei então o sistema Passivhaus, comecei a pesquisar um bocadinho sobre ateliers de arquitetura ou empresas em Portugal com quem eu pudesse contactar e que me conseguissem ajudar a projetar a minha casa com este padrão que eu gosto muito.
MG: E que projeto é este, que casa é esta, de uma forma assim genérica?
CI: É na Ericeira e basicamente vamos reabilitar um antigo aviário, ou seja, um armazém, que era bastante grande. Era o do meu avô, onde ele antigamente fazia produção aviária, e basicamente vamos transformar aquilo em duas casas, duas moradias geminadas, e tivemos muita sorte porque toda a orientação do edifício já está muito alinhada com aquilo que é o conceito Passive House, ou seja, a fachada orientada a sul e algumas características mais. Tivemos muita sorte pois conseguimos manter a evolvente no edifício e ainda assim conseguir ter os benefícios todos que teríamos se estivéssemos a fazer uma construção do zero e a projetar do zero.
MG: Para ti, o que é que distingue uma Passive House de uma casa, vamos chamar-lhe, tradicional ou pelo menos do mais comum em Portugal?
CI: Olha, eu se calhar, se me perguntasses isto de início, eu dizia-te o conforto térmico. Se me perguntares isto atualmente, eu acho que vou dizer saúde. Eu posso mencionar aqui umas conversas iniciais que eu tive nas minhas primeiras interações com o João Marcelino, da Homegrid. O João falava imenso de saúde e fazia-me imensa confusão, porque como é que podemos estar a falar de uma casa e de um padrão de construção e isto influenciar a nossa saúde? E é realmente uma coisa muito difícil de entender, mas quando se experiencia faz todo o sentido. Eu vivo numa casa, não sei se é certificada Passive House, mas a maneira como a casa é construída, a nível de isolamento, as janelas que eu tenho, eu tenho ventilação mecânica centralizada. Eu vivo aqui há cerca de 8 anos e fiquei doente uma vez e, cada vez que eu vou a Portugal, eu vou muito frequentemente a Portugal, é muito raro não ficar doente. E isto, assim, para mim é extremamente importante, porque a saúde é provavelmente o asset mais valioso que nós temos. Essa é a maior razão, é o conforto térmico e a saúde.
MG: E no fundo isto também é um processo, não é? Nesta altura, e aqui enquadrando em que estamos a gravar, vocês estão com o projeto finalizado, estão com a fase de licenciamento, com perspetiva de começar a obra ainda este ano, correto?
CI: Mais ou menos, certo. Nós começámos o projeto há algum tempo, houve aqui uma grande batalha ainda com a Câmara Municipal, porque o edifício é um edifício antigo, houve ali algumas questões no projeto de arquitetura e de licenciamento. Essa parte já foi ultrapassada, nós já temos licença de construção, portanto neste momento só estou aqui à espera da disponibilidade do meu construtor para inicializarmos as obras. Basicamente espero daqui a uns meses já ter ali algumas coisas a acontecer.

MG: Este foi um projeto que inicialmente não foi logo feito por um arquiteto, por um Passive House designer e vocês a determinada altura recorreram então aqui ao serviço de consultoria. Porquê? Porquê o serviço de consultoria em Passivhaus? Ou seja, em que diferença é que tem feito essa consultoria e porquê é que ela tem sido importante?
CI: Aqui o processo de consultoria com a Homegrid é muito importante porque a parte do projeto de arquitetura eu acho que não é extremamente difícil de um arquiteto projetar uma casa que esteja minimamente dentro do padrão Passive House. Quando começamos a chegar à parte das especialidades e como é que vamos realmente, que janelas é que vamos escolher? Que isolamento da fachada exterior é que vamos escolher? Como é que vamos fazer a parte da estanquidade ao ar? Quando começamos a chegar a esta parte toda dos projetos de engenharia aí é que é extremamente difícil encontrar pessoas que conheçam o padrão Passive House e que consigam adaptar isso aos projetos que têm que ser entregues na Câmara Municipal para que eles me deem a licença de construção. Aí é que a Home Grid, através da consultoria, me tem dado um grande apoio, a eu conseguir escolher soluções que me vão possibilitar ter a certificação Passive House e ao mesmo tempo estar de acordo com a legislação portuguesa.
MG: E falaste agora aqui na certificação, já percebi então que será um objetivo. Porquê certificar?
CI: Olha, inicialmente não era. Inicialmente eu não estava assim muito interessado na parte da certificação. Interessava-me mais ter uma casa com conforto térmico e que me desse saúde, como é que eu vivo aqui em Copenhaga. Mas depois de ver todo o esforço que isto envolve e chegar ao fim e não obter a certificação, que eu não penso em vender nenhuma das casas, mas futuramente nunca se sabe, e é uma mais-valia, certo? Vai mostrar todo o processo da construção, vai mostrar todo o processo das escolhas e ao fim e ao cabo qual é que é o resultado final das escolhas que nós fizemos para a eficiência da casa que estamos a construir. E tendo em conta todo o processo de definição de soluções, a implementação e o esforço que isso vai levar. E chegar ao fim e não certificar, neste momento para mim não faz sentido.
MG: Acaba por servir como uma garantia tanto no final como até no processo de obra, não é? As coisas têm de ser feitas, senão a casa não vai obter a certificação.
CI: Exatamente, vamos ter ali logo um teste muito grande, não é? Quando fizer o blower door test. E isso também muda um bocadinho o mindset das pessoas que vão trabalhar na obra, na minha opinião, porque cada vez que houver um profissional que vai trabalhar numa área específica, por exemplo nas janelas, vai ser logo dito inicialmente que nós pretendemos ter a certificação, vai haver um teste e se as coisas não ficarem bem feitas não vamos passar no teste, não é? Portanto eu acho que eu levo aqui um bocadinho a fasquia também para os profissionais que vão trabalhar na casa, porque vai haver um teste, vai haver uma certificação e ao mesmo tempo também adicionar algum valor, não é? Porque cada vez mais a eficiência energética é um tópico, cada vez mais nós queremos ter mais conforto com menos consumo energético e a Passive House é exatamente isso.
MG: Muito obrigada, voltaremos a falar, com certeza.
CI: Muito obrigado.
Veja a entrevista aqui.